terça-feira, 15 de maio de 2012

Você sabia? Temos a honra ter ter um Padre Indígena em nossa Faculdade (FSDB)

Justino Sarmento Rezende é indígena Tuyuka. Mestre em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) em 2007, com dissertação intitulada Escola Indígena Municipal Utãpinopona-Tuyuka e a Construção da Identidade Tuyuka. É autor do livro A Educação na visão de um Tuyuka, dentre outros trabalhos sobre educação escolar indígena.
Assim sendo, está diretamente envolvido com as questões em torno da educação escolar indígena, e por isso mesmo não deixaria de estar vinculado ao debate sobre a criação de ensino superior indígena no Rio Negro. Justino Tuyuka é um dos seis indígenas membros do Grupo de Mestres Indígenas do Rio Negro, que recentemente propôs o projeto da Universidade Indígena do Rio Negro (UIRN). Por outro lado, também apóia a iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA) com seu projeto Formação Superior Indígena, Interdisciplinar e Multicultural do Rio Negro. O mestrado de Justino Tuyuka foi sobre a escola piloto diferenciada promovida pelo ISA em parceria com as comunidades Tuyuka, que inspira as diretrizes do projeto de ensino superior do ISA.
Além de seu envolvimento com as questões sobre educação superior indígena na região, Justino Tuyuka também é padre, tendo recebido desde a infância uma formação salesiana. Os Salesianos possuem diferentes missões no Rio Negro, e o Padre Justino Tuyuka é o diretor da missão da cidade de Iaraueté.

Aventuras de Um Padre

"Mamãe, ele é padre? Por que fala em tukano?"
o Iauaretê é o nome de uma localidade, também o nome de um
Distrito do Município de São Gabriel da Cachoeira-AMo Nesta localidade
vivem vários povos indígenas: Tariano, Wanano, Desano, Piratapuia,
Tuyuka, Arapaso, Hupda, Tukano e outros. Também, moram alguns
não-indígenas, militares, agentes de saúde, correio... Atualmente habitam
aproximadamente cinco mil habitantes, organizados em dez vilas
(com unidades). Nos meus primeiros anos de padre eu trabalhei naquela
missão salesiana (1994-1996).
Eu sou indígena Tuyuka. Como a língua mais falada em Iauaretê é
Tukano eu a usava direto. Coloquei na minha cabeça que para fazer o
povo compreender a mensagem eu tinha que falar em tukano. Assim eu
tenho feito nas conversas com os indígenas que vivem naquele distrito.
Também na missa, eu uso a língua tukano. O fato de eu usar esta
língua facilita a compreensão da mensagem transmitida. Os mais idosos
gostam muito. Também muitos jovens gostam. Há grupos que não gostam
muito.
Aqueles que não gostam que fale em tukano nas missas acham que
o bom padre tem fazer a pregação na língua portuguesa. A história
missionária levou a criar esta imagem/ mentalidade. Maioria dos missionários
como não aprenderam língua tukano falavam somente a língua
portuguesa. Talvez, por isso, muitos indígenas entenderam que o portu;..
guês fazia parte do ritual da missa. Por muito tempo foi assim. E, continua
assim até hoje.
Há poucos anos atrás começaram a aparecer os índios padres, desta
região, a partir de 1992. Eu sou um deles. Nós começamos a falar a
língua tukano nas missas.
.
Olhando para as reações do povo surgem alguns questionamentos:
será que a língua tukano usada nas missas diminui a fé do povo indígena?
Será que a língua portuguesa ajuda mais a fé do povo indígena? Muitas
vezes dá impressão que sim. Uma autêntica pregação tem que ser feita em
português. São realidades que estão presentes no meio do povo indígena.
É nesse contexto que surge esta dúvida existencial de uma criança.
Penso que esta dúvida e questionamento desta criança são reflexos daquilo
que muitas outras crianças pensam. Não somente as crianças, mas
jovens e os adultos.
A mãe da criança contava para mim sobre o diálogo entre ela e seu
filhinho de quatro anos durante a missa que eu estava presidindo no dia
de domingo.

p.160
Justino Sarmento REZENDE.Aventuras de um índio.

Aventuras de um Padre (continuação)

A mãe da criança disse que na hora que eu comecei a missa, a
criança ficou observando atentamente e por muito tempo. A mãe disse
mais: a criança olhava para mim (padre), olhava para as pessoas e olhava
para a mãe. Esta atitude era como se ela dissesse: será que eles estão
vendo o que eu estou vendo? Ou eles não estão vendo?
A mãe da criança disse que na hora em que todos se sentaram
para ouvir a minha homilia, a criança continuou olhando para mim (padre)
e depois perguntou para a mãe: mamãe, ele é padre? A mãe respondeu:
Sim, meu filho. Ele é padre! A criança perguntou para a mãe: Por
que ele está falando em tukano? A mãe respondeu: Porque ele é nosso
parente. Por isso, ele fala em tukano!
A presença missionária foi criando no imaginário do povo um estilo
de ser padre. Quando surge índio padre, parente deles, falando a mesma
língua que eles falam, desestrutura o imaginário construído há várias
décadas. A língua tukano falada nas missas diminui aquele mistério que
existia. Fazia parte do mistério da missa, não entender tudo, só o padre
entendia tudo. A língua tukano falada na missa acaba revelando o que
estava escondido.
Penso que para os povos indígenas que estão acostumados com
rituais, danças... que usam línguas muito antigas e, por isso, incompreensíveis,
uma missa com linguagens incompreensíveis não faz grandes
diferenças. O importante é que os agentes dos rituais saibam falar aquelas
línguas, pouco se importam se o restante dos participantes estão entendendo
ou não. São ritos e suas linguagens não precisam ser entendidas,
mas repetidas.
Para muitas pessoas o espaço para falar a língua tukano é fora da
igreja, fora da celebração... Digamos que não é língua' religiosa'. A língua
para falar com Deus é língua portuguesa. Deus entende e atende na
língua portuguesa. Deus não atende pela língua indígena. Dentro deste
contexto que a Igreja, hoje, está procurando trabalhar a questão da
inculturação do evangelho: falar de Deus na sua própria língua, louvar
a Deus na sua própria língua e usar os símbolos indígenas nas celebrações
litúrgicas etc. Mas isso não avança, pois' a outra forma de celebrar
influenciou demais a vida dos indígenas da região.
A resistência ao surgimento de outro estilo de evangelizar só pode
ser compreendida a partir da compreensão da construção histórica deste
povo. Por um longo tempo os povos indígenas foram ensinados assim.
Tellu5, ano 6, n. 11, OUt.2006 161

Indíos sim...Independentes sempre!

            O movimento indígena, como um todo, e os povos e organizações, romperam com o silêncio e com o isolamento. Visivelmente, já colecionam muitas vitórias no decorrer dos últimos 40 anos e continuam a conquistar espaços e apoios na sociedade brasileira. Além disso, se constituem como exemplos, tendo em vista o direito que conquistaram de exercer sua própria e plena cidadania, vencendo e pondo fim à tutela imposta secularmente pelo Estado e pelas missões religiosas, se libertando da discriminação e dos preconceitos.
            Esse é o caminho que está sendo trilhado pelos povos indígenas, uma marcha rumo à autonomia e à construção de um País reconhecidamente diversificados em seus aspectos étinicos e culturais. Estão aí as retomadas de terras, o surgimento de povos tidos como extintos, a preparação de quadros políticos próprios, como professores, agentes de saúde e em outras áreas de que necessitam para garantir seu futuro.
            O assistente social deve estar engajado na luta pelos direitos destes povos que ainda que depois de tantas conquistas, encontram-se à margem de uma sociedade exclusivista e preconceituosa, esses profissionais devem estar a todo momento buscando divulgar as necessidades e precariedades das condições de vida do indígenas buscando incluí-los em seus direitos garantidos pela Constituição desde 1988.
            “Os povos indígenas e suas organizações têm mostrado não apenas uma grande e histórica capacidade de resistência, mas uma vitalidade e criatividade que vêm surpreendendo seus amigos e também inimigos.” (Cemi. Outros 500: construindo uma nova história. São Paulo: Editora Salesiana, 2011)