A mãe da criança disse que na hora que eu comecei a missa, a
criança ficou observando atentamente e por muito tempo. A mãe disse
mais: a criança olhava para mim (padre), olhava para as pessoas e olhava
para a mãe. Esta atitude era como se ela dissesse: será que eles estão
vendo o que eu estou vendo? Ou eles não estão vendo?
A mãe da criança disse que na hora em que todos se sentaram
para ouvir a minha homilia, a criança continuou olhando para mim (padre)
e depois perguntou para a mãe: mamãe, ele é padre? A mãe respondeu:
Sim, meu filho. Ele é padre! A criança perguntou para a mãe: Por
que ele está falando em tukano? A mãe respondeu: Porque ele é nosso
parente. Por isso, ele fala em tukano!
A presença missionária foi criando no imaginário do povo um estilo
de ser padre. Quando surge índio padre, parente deles, falando a mesma
língua que eles falam, desestrutura o imaginário construído há várias
décadas. A língua tukano falada nas missas diminui aquele mistério que
existia. Fazia parte do mistério da missa, não entender tudo, só o padre
entendia tudo. A língua tukano falada na missa acaba revelando o que
estava escondido.
Penso que para os povos indígenas que estão acostumados com
rituais, danças... que usam línguas muito antigas e, por isso, incompreensíveis,
uma missa com linguagens incompreensíveis não faz grandes
diferenças. O importante é que os agentes dos rituais saibam falar aquelas
línguas, pouco se importam se o restante dos participantes estão entendendo
ou não. São ritos e suas linguagens não precisam ser entendidas,
mas repetidas.
Para muitas pessoas o espaço para falar a língua tukano é fora da
igreja, fora da celebração... Digamos que não é língua' religiosa'. A língua
para falar com Deus é língua portuguesa. Deus entende e atende na
língua portuguesa. Deus não atende pela língua indígena. Dentro deste
contexto que a Igreja, hoje, está procurando trabalhar a questão da
inculturação do evangelho: falar de Deus na sua própria língua, louvar
a Deus na sua própria língua e usar os símbolos indígenas nas celebrações
litúrgicas etc. Mas isso não avança, pois' a outra forma de celebrar
influenciou demais a vida dos indígenas da região.
A resistência ao surgimento de outro estilo de evangelizar só pode
ser compreendida a partir da compreensão da construção histórica deste
povo. Por um longo tempo os povos indígenas foram ensinados assim.
Tellu5, ano 6, n. 11, OUt.2006 161
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