terça-feira, 15 de maio de 2012

Aventuras de Um Padre

"Mamãe, ele é padre? Por que fala em tukano?"
o Iauaretê é o nome de uma localidade, também o nome de um
Distrito do Município de São Gabriel da Cachoeira-AMo Nesta localidade
vivem vários povos indígenas: Tariano, Wanano, Desano, Piratapuia,
Tuyuka, Arapaso, Hupda, Tukano e outros. Também, moram alguns
não-indígenas, militares, agentes de saúde, correio... Atualmente habitam
aproximadamente cinco mil habitantes, organizados em dez vilas
(com unidades). Nos meus primeiros anos de padre eu trabalhei naquela
missão salesiana (1994-1996).
Eu sou indígena Tuyuka. Como a língua mais falada em Iauaretê é
Tukano eu a usava direto. Coloquei na minha cabeça que para fazer o
povo compreender a mensagem eu tinha que falar em tukano. Assim eu
tenho feito nas conversas com os indígenas que vivem naquele distrito.
Também na missa, eu uso a língua tukano. O fato de eu usar esta
língua facilita a compreensão da mensagem transmitida. Os mais idosos
gostam muito. Também muitos jovens gostam. Há grupos que não gostam
muito.
Aqueles que não gostam que fale em tukano nas missas acham que
o bom padre tem fazer a pregação na língua portuguesa. A história
missionária levou a criar esta imagem/ mentalidade. Maioria dos missionários
como não aprenderam língua tukano falavam somente a língua
portuguesa. Talvez, por isso, muitos indígenas entenderam que o portu;..
guês fazia parte do ritual da missa. Por muito tempo foi assim. E, continua
assim até hoje.
Há poucos anos atrás começaram a aparecer os índios padres, desta
região, a partir de 1992. Eu sou um deles. Nós começamos a falar a
língua tukano nas missas.
.
Olhando para as reações do povo surgem alguns questionamentos:
será que a língua tukano usada nas missas diminui a fé do povo indígena?
Será que a língua portuguesa ajuda mais a fé do povo indígena? Muitas
vezes dá impressão que sim. Uma autêntica pregação tem que ser feita em
português. São realidades que estão presentes no meio do povo indígena.
É nesse contexto que surge esta dúvida existencial de uma criança.
Penso que esta dúvida e questionamento desta criança são reflexos daquilo
que muitas outras crianças pensam. Não somente as crianças, mas
jovens e os adultos.
A mãe da criança contava para mim sobre o diálogo entre ela e seu
filhinho de quatro anos durante a missa que eu estava presidindo no dia
de domingo.

p.160
Justino Sarmento REZENDE.Aventuras de um índio.

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